Roberto Leal
De Jorge Amado a Pessoa
Desde há muitos anos tenho perseguido um sonho: juntar, num mesmo trabalho, artistas portugueses e brasileiros, artistas da África portuguesa, enfim ver a língua portuguesa, já espalhada pelos quatro cantos da Terra, de braços dados e unida através da música. Hoje demos um passo a mais e assim nasceu “De Jorge Amado a Pessoa”, onde convidei Alcione, Adelaide Ferreira, Carlinhos Brown, Daniel, Elba Ramalho, Fernando Girão, Gil, Joanna, Jorge Aragão, Luiz Carlos, Martinho da Vila, o Rodrigo, os SDS, o grupo Terrasamba, Tito Paris, a TUNA do ISEL e o Vitorino para dividirem comigo este trabalho, cujo título é uma homenagem a dois mestres da língua portuguesa, numa homenagem à própria língua portuguesa. AS MÚSICAS E OS ARTISTAS (Visite os sites dos artistas) |
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Primeiro, vieram os nomes dos amigos: gente de primeira linha, um talento sem tamanho mas que, muito para além disso, era gente do meu coração, colegas que nasceram artisticamente junto comigo. É o caso da Alcione. Começamos juntos, dividimos as mesmas dúvidas e incertezas, mas os mesmos sonhos do princípio de tudo, agarrados ao nosso primeiro empresário, o Corumba. A “Marrom” dá um verdadeiro show de interpretação neste samba “É por Amor” , originalmente destinado a ser o samba-enredo de uma Escola de Samba do Rio de Janeiro e que foi alterado na sua letra para contar a história deste projeto. www.alcioneamarrom.com.br/
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A Adelaide Ferreira foi a mesma coisa: foi minha companheira no meu primeiro projeto, “Nau de Paz”, quando levei 13 artistas portugueses para o Brasil, numa das maiores mostras da música de Portugal naquele país. Ainda me lembro da loucura dos cambistas a revenderem os ingressos a 5, 10 vezes o seu preço, o trânsito parado quarteirões seguidos à volta do Scala do Rio de Janeiro. Um sucesso total. Aí a Adelaide também quis recordar esse nosso momento e escolheu o “Nau de Paz” para cantar, canção esta que, no show no Brasil, era cantada por todos os artistas no palco. |
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O Carlinhos Brown , pessoalmente, eu não conhecia muito bem. Era apenas aquele admirável e enorme nome da música brasileira. Mas um dia ele me emocionou muito. Eu o vi pela TV a falar com tanto amor da sua terra, o bairro do Candeal, em Salvador, onde havia nascido. Falou do seu projeto para ajudar a sua gente. Perguntou, com amor e humildade, se alguém de Portugal não queria oferecer os azulejos para a fonte do Candeal. Telefonei para ele . Falou-se de tanta coisa, a identificação nasceu na hora, veio a conversa, foi o projeto e cá está ele, símbolo de uma Raça forte e Humana. Só podia ser o “Raça Humana não tem cor”. Eu só ainda lhe devo a fonte! |
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Eu sempre tive um carinho muito grande pela música sertaneja brasileira e um dos meus maiores sucessos, “Como é Linda a Minha Aldeia”, que eu dividi com o Dalvan, é uma prova disto. Assim, quando pensei em incluir o “Desencontros” neste CD, a minha admiração e amizade com o Daniel já iam longe. Ele já me demonstrara o tamanho do seu carinho, quando mandou um avião particular à minha casa, para me levar a uma festa da sua família. Era o aniversário da sua avozinha, portuguesa... gente de coração puro e bom. Estava assegurado um lugar para ele, eternamente, no meu coração. E neste CD. O porquê, eu já disse a ele: na vida, a gente só deve brindar, não com as pessoas que só sabem beber... mas com as que sabem comemorar! |
Desencontro |
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A Elba Ramalho , essa irmãzinha que é meu xodó há tantos anos, já fez dueto comigo há tempos atrás. Nossas músicas sofrem da mesma alegria excessiva e sem freios, alegria essa que já misturamos e remexemos : o forró da Elba e o vira do Roberto Leal. E a gente virou “Forrandovira” . Agradeço a Deus a presença e a amizade dessa pessoa mística e cheia de ternura, que já me ensinou muita coisa, pois foi com ela que descobri, através do seu xote, há muito tempo, o pedacinho de Portugal que eu procurava na música brasileira. | ||
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A Gil é a minha menina do coração: Tantas vezes ela me emprestou a sua alegria, no meu programa de televisão. Era tanta alegria, que a gente saía dançando juntos pelo palco e até esquecíamos que havia câmeras por ali. Ela tem esse poder de contagiar. Símbolo da alegria de Salvador, ela trouxe a Bahia para dentro do projeto. Trouxe o Jorge Amado e eu lhe emprestei Pessoa. Foi assim que nasceu a canção tema deste CD: “De Jorge Amado a Pessoa”. |
De Jorge Amado a Pessoa |
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A Joanna , então , é “caso” antigo. Sofremos ambos de uma identificação tão grande, que ela nem precisaria de convite para aparecer nesta festa: bastava dizer a hora. Ainda me lembro, num dos meus programas de TV, de a gente desatar a rir no palco. Já a entrevista ia, nós dois sentados no chão. Daí para cairmos de costas foi um nada, apenas uma palavra mais engraçada. “Só Nós Dois” era a única canção capaz de dizer, melhor do que o estou tentando agora, “o quanto nos queremos bem”. |
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“Um Velho me Disse” é quase uma oração, uma confissão, um balanço de vida, com toda a sua profundidade e conclusão de desacertos, embora o tom e o ar bem disposto da letra quase encubra tudo isto.Para dividir esta sabedoria que traz a experiência de vida, só mesmo um mestre... A minha admiração pelo Jorge Aragão me obriga a coloca-lo num pedestal, daqueles que, como poetas, podem ditar máximas de vida e nos ensinar o caminho das pedras. Daqueles que nos ajudam até a cantar amarguras sem perder o otimismo. Ou cantar nossos próprios erros , sabendo que da próxima vamos acertar. |
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O Luiz Carlos foi precursor de um movimento dos modernos grupos de samba e um lutador pela raça negra, consagrando mesmo e até dedicando o nome “Raça Negra” ao seu grupo. A partir do seu sucesso, nasceram muitos seguidores pelos palcos do Brasil e outros grupos de samba seguiram-lhe o rastro. Por ações como esta, eu sempre admirei o Luiz Carlos e o quis junto comigo neste projeto, do qual fazem parte pessoas de atitude, como ele. Nem que seja apenas para uma grande farra “Na Casa da Tetê”. |
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O Martinho da Vila foi responsável pelo meu “batismo” no carnaval brasileiro, pois foi a seu convite que, já há muitos anos, desfilei pela Vila Isabel como destaque da Escola. Foi com orgulho e uma emoção que não cabe em palavras descrever, que eu entrei na avenida em cima do carro alegórico, uma nau construída especialmente para mim, numa homenagem aos Descobrimentos. Como figura símbolo do samba, é claro que eu havia escolhido outra música para ele cantar, o “Obrigado Brasil”. Mas o Martinho retrucou: esta música é uma homenagem sua, pessoal, que não deveria ser cantada por ninguém. Então eu lhe cantarolei, mesmo por telefone, o “Chora Carolina”. Apaixonou-se na hora... Pensando bem, eu acho que ela tem mesmo a cara dele... |
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Um nome inquestionável para dividir o “Aleluia” comigo, eu conheci os S D S num especial de Natal. Bastaram 10 minutos dividindo o mesmo camarim para eu perceber o talento e a beleza de alma desse grupo. Daí para a frente, eles foram uma verdadeira invasão ,:invadiram a nossa casa, o estúdio a dentro com a sua alegria contagiante, vibração e sonoridade. Nunca mais conseguíamos gravar, ficamos horas mentirosamente “ensaiando” a canção, pelo puro prazer de estarmos ali juntos, numa adoração mútua: eram eles a adorar a canção e eu a adorar aquelas vozes harmoniosas. Casamentos que dão certo. |
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Há uns anos atrás, um incidente com brasileiros, no aeroporto de Lisboa, despoletou situações que quase fizeram estremecer as relações entre Brasil e Portugal. Foram dias de tristeza para mim, pois eu não queria acreditar nem aceitar que um dia esses dois países irmãos pudessem ter um grão de areia que fosse, a lhes machucar o entendimento. Eu me senti como uma criança ao ver os pais discutirem... e a temer o divórcio. Neste estado de alma nasceu a canção “Clareou – Sol da Igualdade”, onde eu falo do meu temor pela noite escura das desavenças, da palavra dura. A música foi para as mãos ( e voz !) do Reinaldo Nascimento .Foram os únicos participantes deste projeto a fazerem o seu próprio arranjo e gravação. Os Terrasamba hoje selam gostosamente com o seu talento fantástico, uma parte da História luso-brasileira que eu peço a Deus que nunca mais se repita. |
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Com alguns companheiros de Portugal eu convivi menos, pois minha carreira sempre esteve mais plantada no Brasil. Mas, como não há amor que não nasça primeiro da admiração, foi com infinita admiração que os convidei. O carinho e a amizade nasceram com a pré-produção, que foi longa, desenrolando-se desde fevereiro de 2003 (pensando bem, acho que vem se desenrolando desde há 30 anos atrás...). E foi assim que eu me deliciei com a presença do Tito Paris, essa voz inconfundível, que eu conheci em Fortaleza, no Brasil. Aliás, quando nasceu o “Enrola na Areia”, eu comentei com a Márcia : essa música tem jeito de morna caboverdiana. E aí sempre me vinha à mente o nome do Tito. Portanto, tê-lo ao meu lado nesta canção, além de ser uma honra, é como estar “entregando ao dono” o que lhe pertence. |
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A esta verdadeira festa, que é este projeto, não poderia faltar a alegria de uma TUNA. Era outro sonho meu ... e lá vieram eles, estandarte na mão, com a sua algazarra, as capas pretas orgulhosamente atiradas aos ombros, como a dar asas à sua juventude. Universitários do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, (Estudantina Acadêmica do ISEL), futuros engenheiros de Portugal, não eram mais que belos rostos sorridentes e joviais, exibindo com maestria danças e cantares, pandeiretas e otimismo, como num constante afirmar “ Que Bela a Vida” ! |
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O Vitorino, esse eu já respeitava e admirava há muito tempo, já havia estado no meu programa de TV, levando a sua figura altiva e marcante, a sua voz melodiosa, sonora e quente como as tardes alentejanas. Chegou com o seu olhar agudo, que enxerga por trás da partitura do “Ó Rama, ó que Linda Rama”. Chegou como um bom soldado do cantar em português, a horas certas e não precisou de partitura. Sabia-a de cor no coração, como sabe de cor e com amor profundo todos os cantares do Alentejo e suas tradições Agradeço a ele por juntar-se a nós e trazer-nos o que há de mais puro na música de Portugal. http://www.pflores.com/vitorino/index.php |
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Difícil colocar aqui, em poucas palavras, a participação do Rodrigo Leal neste trabalho, ele que tem participado da minha vida desde sempre. O nosso amor tem sido tão maior que tudo, maior que o seu enorme talento, sua capacidade como produtor, sua excelência como músico... e tudo isto apenas se transforma em motivos a mais para se admirar um filho que se ama. A canção “Heróis do Mar”, foi ele quem escolheu . Talvez por também ter sentido, embora tenha nascido no Brasil, esse chamamento interior, que nos empurra para o mar, a todos nós portugueses. |
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Como não podia deixar de ser, esta obra termina com Fernando Pessoa. Fizemos uma linda melodia, a Márcia e eu, para “O Infante”, uma das suas mais lindas poesias. Ao Fernando Girão , (a quem já conheço desde há muitos anos e de quem já gravei algumas músicas), a esse meu amigo meio índio brasileiro, meio português, meio ternura , meio selvagem, coube interpretar ( e com que sentimento!!) esta canção.
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Assim, como disse Fernando Pessoa, “Deus quer, o homem sonha a obra nasce”. E assim nasceu “De Jorge Amado a Pessoa”... LETRAS DAS CANÇÕES & FICHA TÉCNICA Oito estúdios de som e uma centena de pessoas ajudaram a construir este trabalho, entre músicos, técnicos, engenheiros e auxiliares de som, artistas, maestros e produtores. CLIQUE AQUI para saber quem são e o que fizeram e para ter acesso a todas as letras deste trabalho- |
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